Bastidores do Concílio Vaticano II

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Nosso secretariado em Roma



Na primeira fase do Concílio, Plinio Corrêa de Oliveira e o secretariado do grupo de Catolicismo por ele montado em Roma atuaram com empenho em duas iniciativas de alcance histórico [ver Capítulo IX] . Na foto, Plinio e alguns membros do secretariado em frente à Basílica de São Pedro.
Dr. Plínio no concilio Vaticano II Na primeira fase do Concílio, Plinio Corrêa de Oliveira e o secretariado do grupo de Catolicismo por ele montado em Roma atuaram com empenho em duas iniciativas de alcance histórico [ver Capítulo IX] . Na foto, Plinio e alguns membros do secretariado em frente à Basílica de São Pedro.

1. Dissabores em série

Minha presença em Roma [113] durante o Concílio não foi uma justaposição de prazeres e contentamentos de um lado, e de severos pesares de outro lado [114]. Eu estava carregado de aborrecimentos [115].

Essa estadia de tal maneira constituiu um sofrimento para mim que, quando voltei para São Paulo e pisei o chão, tive uma sensação de alívio: “Afinal acabou!”

Por que razão? Porque durante todo esse tempo, dentro do Concílio, e portanto dentro da Igreja, tudo se moveu mal e erradamente.

2. Chocante modo de ser de boa parte dos Bispos

Sessão de abertura do Concilio Vaticano II
I

Minha intenção primeira era ir sempre assistir às sessões do Concílio, porque significava ver a Igreja na sua maior pompa, instalada com dois mil Bispos naquele edifício colossal da Basílica de São Pedro, todos de mitra, báculo. Eu poderia ficar ali quatro a cinco horas simplesmente olhando aquele protocolo e esplendor [116].

Mas fui apenas uma vez. E depois não pus mais os pés na Basílica, a não ser quando, no encerramento da primeira fase do Concílio, fui assistir a uma Missa celebrada por Dom Mayer no altar de São Pio X.

Íamos sair todos de Roma e a Missa encerrava aquela fase de atividades. Fora disso, NÃO, de tal maneira eu estava entristecido, para não dizer mais, com o desenrolar do Concílio [117].

*   *   *

Uma coisa que me causou especial desagrado foi ver os Bispos chegarem de coletivos, e não de automóvel para as sessões.

Vinham às vezes em ônibus com nome de colégios de meninas: Collegio delle Bambine, Collegio del Sacro Cuore.

Os Bispos orientais desciam desses ônibus e na própria praça vestiam seus hábitos. Era uma coisa que não se compreendia que fizessem.

Bispos durante o Concilio Vatino II “Irmãos Separados” – Na recepção para os observadores não-católicos, chamados de “irmãos separados” , vê-se o Cardeal Bea (centro), encarregado de promover a unidade dos cristãos; e os observadores ortodoxos e protestantes [Life, Vol. 53, Nº 18, 2 de novembro de 1962]

Na saída das sessões, a mesma coisa: no átrio da igreja, tiravam aqueles hábitos com pressa, pois era preciso chegar a tempo para o almoço no colégio. Então faziam tudo correndo, e no meio de brincadeiras.

3. Presença desagradável de bispos greco-cismáticos

Desagrado maior, como já expliquei, foi causado pela presença de bispos greco-cismáticos numa tribuna do Vaticano.

Eram sete ou oito popes com aqueles chapéus pretos, bigodes em forma de um fiozinho, olhos negros reluzentes e malévolos.

Não diziam nada, prestavam atenção em tudo [118].

Em uma palavra, eram representantes do Kremlin, escravos do ateísmo comunista e entretanto estavam ali, junto a todo o episcopado da Terra [119].

4. Dom Sigaud, Dom Mayer e o “Coetus”

Havíamos alugado uma sede em um bairro muito bom de Roma, chamado Parioli. Neste bairro tínhamos uma ampla casa, e vários do nosso grupo nela se alojaram.

Em um instituto da Societas Verbi Divini, organização missionária que opera em 33 países , um grupo de Bispos relaxa com Scoth e Conhaque [ Life, Vol. 59, Nº 25, 17 de Dezembro de 1965]
Em um instituto da Societas Verbi Divini, organização missionária que opera em 33 países , um grupo de Bispos relaxa com Scoth e Conhaque [ Life, Vol. 59, Nº 25, 17 de Dezembro de 1965]

Dom Mayer vinha toda tarde a esta sede e participava de uma reunião diária que fazíamos, a qual constava de duas partes.

A primeira parte versava sobre o que se tinha passado no plenário do Concílio, e outra parte sobre o trabalho de bastidores do Coetus [120]da direita: que planos tinham, como havia corrido a execução dos planos nesse dia e quais eram os planos para o dia seguinte. De si, uma coisa muito interessante e para a qual estávamos lá.

Mas ele contava também coisas jocosas acontecidas durante a sessão.

Por exemplo, ele dizia que, dentro da Basílica, montaram vários pequenos bares para os Bispos comerem ou beberem alguma coisa: um cafezinho, um chá, um refrigerante, um pequeno lanche.

Como “bar”, em hebraico, significa “filho de”, os Bispos começaram a designar esses bares: Bar Jonas, filho de Jonas, Barrabás… Ali brincavam uns com os outros, caçoavam, de um modo que absolutamente não correspondia à responsabilidade que eles tinham em um Concílio Universal.

Afinal, cansavam-se e voltavam para o plenário para tomar parte nas discussões…

Essas discussões, naturalmente, eram completamente controladas pelo Vaticano. Quem fizesse alguma coisa fora das diretrizes, expunha-se a ser severamente repreendido. Os Bispos então andavam na linha.

Coetus dos Prelados da direita fazia planos e depois se deixava embair de modo absurdo*.

* Um exemplo disso foi o que aconteceu com a petição de condenação do comunismo assinada por centenas de Bispos, como veremos mais adiante.

Fatos desses se deram em série.

Nós sugeríamos a Dom Sigaud e a Dom Mayer tomar tal e tal atitude, mas eles não davam importância. Um funcionário de portaria de hotel tinha tanta influência no Concílio quanto nós. Isso depois de termos feito um gasto enorme — mas enorme! — para estarmos presentes e de alguma forma atuarmos no Concílio.

5. Sabotado em conferência de imprensa: conservador demais!

Os leigos da direita e os da esquerda eram convidados a promover conferências de imprensa para jornalistas e políticos sobre pontos em que estes desejassem ser informados.

P

Tais reuniões estavam programadas para se realizar no convento dos Padres do Verbo Divino, congregação religiosa a que pertencia Dom Sigaud.

Eu também fui convocado para essas reuniões. E me dirigi para lá.

Um padre alemão do Verbo Divino, que tinha muita simpatia por nós, me acolheu muito bem: era um grande amigo de Dom Sigaud. Chamava-se Padre Ralph Wiltgen[121].

Este sacerdote me disse:

— Pela escalação, o senhor tem uma conferência agora. Vamos até a sala, pois já há pessoas esperando.

Íamos entrando e nisto aparece um padre que diz:

— Quem é esse senhor?

— É o professor Plinio Corrêa de Oliveira, de São Paulo.

— Não precisava falar. Por que ele precisa falar?

Disse assim, com essa brutalidade!

O padre nosso amigo respondeu cortês:

— Ele consta da lista de pessoas convidadas. Não há razão para ele não falar.

— Não! Não! Ele é muito antiquado, muito conservador. Não há jeito de cortar?

O Padre Ralph Wiltgen disse:

— Não, não há jeito! Professor, por favor, suba na cátedra que já estão à sua espera.

Dei então uma conferência de imprensa* para homens que eu nem sabia bem quem eram. Estava tudo mal arranjado.

* Essa conferência de imprensa realizou-se no dia 16 de outubro de 1962 e versou sobre o tema Reforma Agrária.

Terminada a conferência, um daqueles padres me disse:

— O senhor está dispensado das outras conferências. Houve um engano e o seu nome não figura na lista*.

* Boicote semelhante foi narrado pelo Príncipe Dom Bertrand em reunião plenária da TFP de 30 de junho de 1984:

“Monsenhor Zanini, redator do Osservatore Romano, teve vários contatos com o prof. Fernando Furquim de Almeida e depois entrevistou Dr. Plinio no Hotel Excelsior sobre a crise na América do Sul. Dr. Plinio desenvolveu o que há de mais ortodoxo sobre a crise moral e religiosa, dizendo que se os 97% de católicos no Brasil cumprissem os dez Mandamentos, não haveria crise nenhuma no País. Foi uma entrevista absolutamente ‘hors série’. Monsenhor Zanini, muito contente com essa entrevista, levou-a para o Osservatore Romano. Mas caiu sobre ela um veto absoluto. […] Não havia nenhum ataque ao progressismo; mesmo assim não podia sair nem o nome de Dr. Plinio nem a tese da crise religiosa”.

*   *   *

O Padre Ralph Wiltgen escreveu depois um célebre livro, cujo título parece à primeira vista extravagante, mas tem sua plena razão de ser: O Reno deságua no Tibre.

Sendo rios que geograficamente não se encontram, era um modo de dizer que as idéias teológicas e filosóficas dos piores modernistas alemães estavam amplamente representadas entre os teólogos e filósofos do Concílio, e que, portanto, essas idéias tiveram uma grande entrada e uma grande influência*.

* O livro recebeu o nihil obstat e imprimatur do futuro Cardeal Terence Cooke, Arcebispo de Nova York. O Padre Wiltgen sofreu muitas pressões para cessar a divulgação desse livro [122].

Referencias:

[113] — Dr. Plínio chegou a Roma no dia 10 de outubro de 1962, abertura do Concílio. Vinha em companhia de Dom Sigaud, Dom Mayer, Frei Jerônimo Van Hinten, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, Dr. Fernando Furquim de Almeida, Dr. Paulo Corrêa de Brito, Dr. Luís Nazareno Teixeira de Assumpção Filho, Dr. Sérgio Brotero Lefevbre, Dr. Fábio Vidigal Xavier da Silveira, Dr. Murilo Maranhão Galliez, Dr. João Sampaio Neto, Dr. Otto de Alencar de Sá Pereira e dos srs. Domimique Pierre Faga, Umberto Braccesi, Emílio Scherer, Carlos Alberto Soares Correia e Pedro Paulo Figueiredo.

[114] Chá 21/2/95.

[115] Palestra 26/8/70.

[116] Chá 21/2/95.

[117] SD 5/5/73.

[118] Chá 21/2/95.

[119] SD 10/8/83.

[120] — O Coetus a que Dr. Plinio se refere, também chamado “Petit Comité”  “Pequeno Comitê”, foi um grupo de estudos/trabalho que reunia participantes do Concílio Vaticano II em desacordo com os rumos progressistas que se delineavam no mesmo. Mais tarde aumentou o número de participantes dando origem, em outubro de 1963, ao Coetus Internationalis Patrum.

[121] — Padre Ralph Wiltgen (1921-2007), sacerdote norte-americano da Sociedade do Verbo Divino. Presente ao Concílio Vaticano II, e notando as lacunas das informações distribuídas pelo Vaticano, montou seu próprio escritório Divine Word News Service, com 3.100 assinantes em 108 países. Ele colocou em realce as conferências de imprensa de vários Bispos que eram boicotados pela mídia. Recebeu por isso pressões para cessar os seus trabalhos, mas outros Bispos o encorajaram a continuar.

[122] Chá 21/2/95.

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