O ministro e o taxista

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Cronista diário não é uma pessoa muito normal. A obrigação de escrever todos os dias me leva a algumas práticas estranhas, que consistem basicamente em transformar tudo – dos mínimos acontecimentos cotidianos às grandes catástrofes universais – em crônica. Nesta permanente busca pelos 2.900 caracteres diários, uma das minhas táticas preferidas consiste em bater papo com os taxistas. É tiro e queda: entro no táxi e saio com a coluna do dia seguinte. 

Não foi diferente no último domingo, quando estava na capital federal (depois de perder um voo no sábado) e marquei um café da manhã com o futuro ministro da Educação, o professor Ricardo Vélez, na Base Aérea de Brasília. 

O taxista que me levou até a Base Aérea é um simpaticíssimo cearense chamado Nelson. Puxei prosa; ele me contou que nasceu no Crato, mas bem jovem foi para Fortaleza, onde serviu o Exército. Nos anos 70, decidiu migrar para Brasília, onde atuou na Guarda Presidencial. Seu Nelson conheceu de perto o presidente João Figueiredo, cujo governo de transição, há 40 anos, coincidentemente funcionou no hotel onde eu fiquei hospedado desta vez, o Aracoara. Juro que não vi o fantasma do Golbery. 

Passando por uma das perimetrais que cortam Brasília, Seu Nelson me mostrou uma faixa amarela, hoje quase apagada, por algum tempo chamada “faixa presidencial”: por ali só podia passar o carro do chefe do Executivo. Aquela faixa pertencia a quem tinha faixa! 

A simpatia do Seu Nelson convive com o seu amor apaixonado pela cidade que escolheu há quase meio século. Com orgulho, ele descreve as qualidades e peculiaridades da capital. Só não gosta de ver o caos provocado pela turma do MST, que às vezes invade Brasília e toca o terror. 

Enfim chegamos à Base Aérea. Duas águias de bronze e um soldado da Aeronáutica – um jovem quase imberbe – montam guarda na frente da unidade. Ele nos presta continência e pergunta aonde vamos. Seu Nelson responde com gentileza e intimidade: 

– Guerreiro, nós vamos conversar com o ministro da Educação. 

Naquele momento, Seu Nelson recordava os muitos dias e noites que passou fazendo guarda na Granja do Torto, no Palácio do Planalto e outros pontos famosos da capital. 

Quando chegamos ao local do encontro, o próprio Ricardo Vélez vem nos receber. Faço as apresentações: 

– Seu Nelson, este é o professor Ricardo Vélez, futuro ministro da Educação. Ministro, este é o Seu Nelson, membro da Guarda Presidencial. 

Com visível emoção, Seu Nelson pede ao professor Ricardo: 

– Ministro, faça alguma coisa pelas crianças do Brasil. Eu estou com quase 70 anos e não sei ler e escrever direito. 

O professor, comovido, responde: 

– Nunca é tarde para aprender, Seu Nelson. Veja, eu estou com 75 anos e ainda preciso aprender muito. O nosso desafio será ensinar todos a ler e escrever bem. 

O taxista ficou feliz por ter conhecido o ministro; o ministro ficou feliz por ter conhecido o taxista; e o cronista ficou feliz por ter conseguido a sua história do dia. 

Uma história, diga-se, de cortar o coração. 

Fale com o colunista: avenidaparana @ folhadelondrina.com.br
Paulo Briguet

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