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Carros da Uber ameaçam reinado dos icônicos táxis amarelos em Nova York

No trânsito da hora do rush, Aziz Ahmed acelerou seu táxi amarelo para pegar o último passageiro do dia. Quando chegava perto, outro motorista passou na frente, indiferente ao berro das buzinas atrás dele, e ofereceu a mesma corrida ao rapaz na calçada por metade do preço. Era um carro da Uber que fechou Ahmed, querendo garantir a todo custo mais um cliente no congestionamento infernal que engessava Manhattan naquele entardecer.

“Se eu faço isso, sou multado. Eu brigava muito antes, mas vi que não vale a pena”, dizia, com ar de tristeza, o taxista que há três décadas dirige pelas ruas de Nova York. “Precisamos rodar cada vez mais a cidade para pegar o mesmo número de clientes. Faz uns dois anos que eu trabalho muitas horas a mais.”

Muitos dos amigos de Ahmed, um imigrante de Gana que construiu sua vida na maior cidade americana com o dinheiro que ganhou no volante do táxi, reclamam das mesmas coisas. Alguns migraram para a Uber e outros aplicativos, como Via, Lyft, Gett e Juno, enquanto vários deles desistiram do negócio de transporte de passageiros.

Em julho deste ano, pela primeira vez na história, mais nova-iorquinos usaram carros da Uber do que o táxi tradicional –enquanto a prefeitura impõe um teto de 13,6 mil táxis, reflexo de uma lei da década de 1930 para evitar congestionamentos, carros particulares a serviço dos aplicativos passam de 63 mil.

O domínio da Uber, por exemplo, antes restrito a Manhattan, agora já se alastrou pelos cinco distritos nova-iorquinos. No Bronx, o número de viagens quintuplicou de um ano para cá, e a demanda em bairros como Queens e Brooklyn responde por metade do negócio.

Esse declínio dos táxis frente a serviços contratados via celular não é exclusividade de Nova York. Mas o risco de extinção dos famosos “yellow cabs” tem um impacto na psique e na paisagem visual da maior metrópole dos Estados Unidos –é um símbolo da cidade que está trocando a rua pela garagem.

SENTIMENTO

 

Nem mesmo o apelo sentimental parece aplacar essa crise. Há dois meses, uma enquete da prefeitura perguntando qual era o filme mais representativo da cidade deixou de fora “Taxi Driver”, clássico que Martin Scorsese rodou em 1976 com um Robert De Niro transtornado dirigindo pelas ruas da cidade.

“Está mais difícil para taxistas por causa da agressividade da concorrência”, diz Allan Fromberg, porta-voz da agência da prefeitura que regula os táxis e as limusines.

“Mas isso não quer dizer que os táxis amarelos vão sumir. Centenas de milhares de pessoas todos os dias em Nova York esticam a mão na calçada para entrar num ‘cab’.”

Nem tantas centenas assim. Nos últimos cinco anos, esse número caiu de 470 mil viagens por dia para 298 mil. Os motoristas, que eram 32 mil em 2012, agora são 26 mil, e o faturamento por dia em toda a cidade despencou de R$ 21 milhões para R$ 14 milhões no período, corroendo junto o valor das licenças.

Há três anos, o alvará para operar um táxi em Nova York beirava US$ 1,5 milhão, quase R$ 5 milhões. Neste ano, é possível comprar um por um décimo desse valor, reflexo de uma onda de proprietários falidos que liquidam as licenças para evitar perder o resto dos bens.

“Quem investiu nisso perdeu muito, muito dinheiro, porque muitos pegaram empréstimos”, diz o taxista Etienne Lherson, imigrante do Haiti, há 15 anos no volante de um táxi amarelo. “Os juros são muito altos, e o negócio já não é mais o mesmo.”

Ele conta que muitos vendem seus alvarás e passam a alugar táxis para trabalhar. Mas o lucro das empresas donas das frotas vem caindo por causa da concorrência com os aplicativos de transporte –se antes o aluguel de um “yellow cab” por semana rendia a eles até R$ 2.600, o valor agora beira metade disso.

Iqbal Singh, um indiano que se mudou para Nova York há cinco anos, decidiu abandonar seu táxi amarelo antes de ver a queda dos valores.

“Eu ganho quase a mesma coisa agora”, dizia Singh, no volante do SUV que comprou depois de entrar para a Uber. “Se você tem seu próprio carro, pode dirigir mais horas ou escolher seus horários. Não tem mais dor de cabeça.”

MAIS LIBERDADE

Ou quase isso. Em uma das poucas garagens de táxi que sobreviveram nos arredores da Times Square, Harvey Kieme contava que o táxi amarelo ainda pode ser vantajoso.

“Muita gente mudou para a Uber nos últimos anos, mas agora pensamos duas vezes”, dizia o taxista, que veio de Burkina Fasso há oito anos.

“Eles chegam a trabalhar 15 horas por dia, e isso não é uma coisa muito inteligente para se fazer em Nova York. Tenho mais liberdade com o táxi amarelo. É melhor às vezes trabalhar menos horas e voltar só para a hora do rush.”

Fonte: Folha de São Paulo

Sobre Carlos Laia

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