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Trajetória de coragem e sucesso na praça de uma taxista de Belo Horizonte

Na ativa há quase 40 anos, uma das taxistas mais antigas de Belo Horizonte supera desafios e preconceito até os dias de hoje

Quase 40 anos atrás, Maria da Penha Cruz, 62, já dirigia táxis por Belo Horizonte. Ainda hoje, conduz passageiros diariamente pelas ruas, ao volante de um sedã comprado apenas há alguns meses. Entre as 780 mulheres credenciadas na BHTrans para exercer essa atividade, em um universo de 12.852 motoristas, incluindo comissionados e titulares, ela é das antigas que ainda estão na ativa.

Maria da Penha se tornou taxista em 1978, movida pelo desejo de melhorar de vida: “Eu era cobradora (de coletivo) e vi uma mulher dirigindo táxi. Então fui atrás do sonho”, explica. Porém, começar a exercer a nova profissão não foi nem um pouco fácil: “Quando comentei com um colega, motorista de ônibus, ele me perguntou quem ia contratar uma mulher. E eu era pobre, não tinha dinheiro para comprar carro próprio. Táxi era coisa de homem”, pontua.

De fato, após obter a habilitação e a licença, a motorista teve dificuldade para se colocar no mercado. “Fui procurar emprego em uma empresa de táxi e não quiseram me contratar; disseram que, por eu ser mulher, não iria conseguir passageiros (suficientes) para pagar a diária (do veículo). Mas depois consegui trabalho em outra empresa, e graças a Deus consegui pagar as diárias e tirar um dinheirinho”, relembra.
Apesar das dificuldades, em 1982, Maria da Penha comprou seu primeiro carro, um Fusca. Daí em diante, foi consolidando-se na profissão, mas nem por isso deixou de enfrentar preconceitos. “Era comum as pessoas preferirem os homens. Hoje é bem mais raro, porque há muitas taxistas, mas outro dia mesmo um passageiro não entrou no meu carro por eu ser mulher”, destaca.

Praça da Estação em 1930: táxis esperavam passageiros que chegavam de trem à capital

Com tantas dificuldades superadas, a veterana motorista não esconde o orgulho sobre sua trajetória profissional: “Criei dois filhos, que hoje têm curso superior, trabalhando na praça”. E nem por isso ela planeja deixar de trabalhar, ao menos no curto prazo. “Já sou aposentada, mas continuo dirigindo para ter uma renda extra”, conclui.

O que mudou

Do passado, a taxista tem saudade do tráfego, que era mais desobstruído nas décadas anteriores: “O trânsito ficou muito estressante”, avalia. Ela também destaca o aumento da violência urbana na capital, que trouxe riscos para a categoria. “É uma profissão perigosa, eu mesma já sofri uma tentativa de assalto, com revólver”, conta. Por outro lado, ela considera que a evolução da indústria automobilística trouxe facilidades: “Os carros atuais, com ar-condicionado e direção hidráulica, tornaram o trabalho menos cansativo”, pondera.

Táxis sempre existiram na capital

Desde sua fundação, no fim do século XIX, a capital mineira já contava com coches que faziam transporte de passageiros. A reportagem localizou no Arquivo Público de Belo Horizonte algumas fotos que mostram esses veículos de tração animal. Embora o órgão não disponha de muitos outros registros sobre esse tipo de serviço na cidade, alguns livros mostram que ele era comum no Rio de Janeiro, então capital federal: os cocheiros, inclusive, já se organizavam em associações.

À medida que os automóveis foram tornando-se mais comuns, os choferes se motorizaram. O ex-taxista Josias Pereira, 75, que começou a trabalhar na praça em 1964, se lembra bem de como o serviço funcionava em meados do século passado: “Até a década de 50, os táxis eram todos americanos; (das marcas) Chevrolet, Buick, Dodge. Depois, vieram os carros nacionais, como Vemag e Simca”, recorda. Com a ascensão da indústria automobilística brasileira nos anos 60, o Fusca se tornou figurinha carimbada nos pontos: “A gente tirava o banco dianteiro (do passageiro) para os passageiros chegarem até o banco traseiro”, conta o ex-motorista.

Pereira também se lembra de outras particularidades dos táxis do passado: “Houve uma época em que os pontos eram fixos; o taxista tinha que parar sempre no mesmo local. Só depois que eles se tornaram livres,” diz. “Os pontos de táxi eram numerados e tinham uma cabine com os números de identificação e de telefone, que era usado para chamar os motoristas”, explica o professor Dimas Alberto Gazolla, do Departamento de Transportes do curso de engenharia civil da UFMG.

Os procedimentos para trabalhar na praça também eram muito menos exigentes. “A gente tinha que ser habilitado e fazer uma matrícula no Detran. E tínhamos que andar com uma cartela do Iapetec (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas, uma espécie de precursor do INSS), que tinha de ser paga periodicamente”, explica Pereira.

Outra curiosidade é que, na época, as corridas já eram cobradas com base no taxímetro, que então funcionava sem nenhum mecanismo digital, apenas com recursos mecânicos: “Os aparelhos eram chamados de ‘capelinha’, por causa da aparência”, relembra Pereira. (AC)

Sobre Carlos Laia

Comandada por Carlos Laia , A Voz Do Taxista tem por objetivo levar a categoria dos taxistas informação, levantar o debate dos assuntos importantes para o desenvolvimento profissional de toda categoria.

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