Estupros e crimes de motoristas de aplicativos nao sensibiliza autoridades e continuam sem regulamentacao

Vítima conta cronologia do estupro cometido por motorista que usava 99pop

O Povo

Carlos Mazza Jáder Santana

Jornalistas contam bastidores da reportagem:

A volta para casa naquela sexta-feira de junho deveria ter terminado de uma maneira diferente. Por volta de 00h40min, Juliana (nome fictício) e seu grupo de amigos decidiram encerrar a conta. Estavam em um bar da Aldeota, celebrando o fim do semestre na faculdade.

Com problemas na conexão do celular, Juliana roteou a internet de um amigo e solicitou um carro no aplicativo 99Pop. Antes de se despedir dos outros, que viviam em bairros distantes do seu e dividiriam seu próprio transporte, tirou print da placa do veículo que chegaria para buscá-la.

Alguns minutos depois, chega ao seu celular a notificação de cancelamento da viagem, realizado pelo próprio motorista. Em poucos segundos, o aplicativo sugere outra opção de transporte, um Renault Fluence.

Juliana aceita e se dirige para a calçada do bar, tentando compensar o possível atraso entre a aproximação real do veículo e o que era exibido na tela do seu aparelho com conexão defasada. Os amigos já haviam ido embora.

Separados por algumas quadras, Juliana e o novo motorista nunca haviam se cruzado na vida. Imagens de câmeras de segurança espalhadas pela região mostram que Patrick Gomes do Nascimento conduzia seu Logan preto pela avenida Padre Antônio Tomás antes de tomar a esquerda na Tibúrcio Cavalcante, a direita na João Carvalho e, mais uma vez, na Dr. José Lourenço. Nessa rua, quando o relógio marca 00h56min, estaciona o carro por meio minuto em frente a um condomínio.

O celular de Juliana marca 00h56 quando recebe de Patrick a primeira mensagem, no campo de contatos do aplicativo. “Tem excesso de passageiro?” Juliana responde que não. “Só um?” Juliana responde que sim. Minutos depois, o Logan preto de Patrick chega ao local marcado.

“Quando ele apareceu, pensei em checar a placa, mas ele chegou perguntando ‘É a Juliana?’. Aí eu senti confiança, não chequei, entrei logo na parte de trás. E aí ele perguntou ‘Você pode vir pra frente?’ Eu respondi que sim, não vi maldade, pensei que podia ser pra evitar fiscalização”, conta.

Segundo Juliana, o motorista, bem arrumado, poderia facilmente ser um “colega de faculdade”. “Era mais alto que eu, bem magro, branco, rosto afilado, e bem jovem, com certeza com menos de 30 anos. Tinha um jeito jovem mesmo. Usava um relógio no braço direito, o carro era arrumado, limpo”, resume.

No painel do veículo, o GPS do celular de Patrick mostrava um caminho diferente do que Juliana usualmente tomaria para voltar para casa. “Ia para a direção oposta, subindo a Santos Dumont inteira”, conta ela, que não conseguia acompanhar o trajeto em seu próprio aparelho.

“Eu questionei: ‘tem certeza que é pra esse lado? Moro em um sentido totalmente oposto’. E ele: ‘provavelmente é um caminho sem trânsito’. Decidi esperar.”

Com o semblante tranquilo, sem demonstrar nervosismo ou qualquer segunda intenção, Patrick perguntou se Juliana estava conhecendo o caminho. “Não, acho que não é por aqui”, respondeu. “Ele parecia calmíssimo, tanto que me acalmou quando comecei a ficar nervosa.

E aí eu realmente achava que a gente tinha se perdido. Mas estranhei, porque comecei a pedir pra ele checar se o meu endereço estava correto no GPS, e ele sempre dizia ‘não, vamos seguir mais um pouquinho'”

O celular de Juliana toca. Do outro lado da linha, outro motorista do 99Pop diz que havia chegado ao bar onde ela estava até cinco minutos antes.

A conexão problemática de seu aparelho não permitiu que Juliana visse que o segundo motorista, aquele que a transportava, também havia cancelado a viagem. Automaticamente, o aplicativo havia direcionado o pedido para um terceiro veículo.

“Aí eu percebi o que estava acontecendo e comecei a me desesperar. Ao mesmo tempo, fomos chegando àquela parte das dunas que é só mato. Comecei a pedir ‘moço, por favor, não faça nada comigo. Se for fazer, por favor, avise ao meu pai, só moramos eu e ele’.

E o motorista respondia, com uma voz de malandro, ‘calma, moça, você tá me interpretando errado, coloque aí no seu GPS'”, conta. Patrick continuou conduzindo o veículo pelas ruas desertas da região, dando voltas, repetindo que Juliana estava “interpretando errado” toda a situação.

Desesperada, Juliana ainda consegue escrever para uma amiga: “fui sequestrada”. A conexão não permite que a mensagem seja enviada. “E aí ele percebeu, deu uma volta, entrou numa rua sem saída, sem iluminação, sem ninguém, puxou o freio de mão e me abordou, como se fosse um assalto.

‘Bora, tira a roupa, tira a roupa'”. Juliana foi estuprada em um pedaço de rua jamais terminada, perpendicular à avenida Doutor Aldy Mentor, nas proximidades da Cidade Fortal.

“Quando puxou o freio de mão, ele virou outra pessoa. Agressivo, falava muito palavrão, ficava mandando eu fazer as coisas na pressa, com raiva. Enquanto me abusava, ele me batia muito, muito. E gravava tudo com o celular dele. Eu chorava o tempo inteiro, tinha certeza que ele ia me matar.

Eu dizia ‘se você vai fazer isso, me mate logo’. E ele falava ‘você quer morrer?’ E eu: ‘me mate agora, me mate logo’. E aí ele dizia que ia me matar cortando meu pescoço, mas não mostrava arma, e me pedia pra continuar fazendo as coisas”

Patrick abusou de Juliana por cerca de dez minutos. Durante aquele intervalo de tempo, ninguém passou pelo local. “De repente ele parou e disse ‘bora, o que você tem aí pra mim?’. Eu ainda tava nua, mas dei todo o meu dinheiro, cento e dez reais e algumas moedas. Joguei tudo em cima dele. Perguntei se ele queria meu celular, ele disse que não, mandou eu me vestir e descer.

Me vesti na pressa, só a blusa e a saia, ainda deixou roupa lá. Aí ele ‘desce e fica de costas, não se vire pra trás, porque eu mato você'”.

Juliana desceu do carro ainda descalça. Cortou o pé em pedaços de azulejos quebrados no meio da via. Aguardou alguns minutos, enquanto o ruído do motor do carro desaparecia na madrugada, e correu. Correu por cerca de 500 metros, até o primeiro condomínio que avistou.

“Cheguei lá e encontrei um segurança da escolta armada. Ele me colocou pra dentro do condomínio, me ajudou a ligar pro meu pai, passou a localização. Me contou que há poucos dias outra menina tinha chegado lá na mesma situação, que aquele era um lugar conhecido pra aquele tipo de coisa”.

O pai e o irmão de Juliana foram encontrá-la no local. Antes de voltar para casa, passam pelas delegacias de polícia do 2º (Meireles) e do 34º (Centro) Distritos, onde são informados sobre os procedimentos que deveriam ser tomados.

Nos dias seguintes, Juliana e sua família se dedicam a realizar Boletim de Ocorrência, exame de corpo de delito e abertura de inquérito.

“Foi desesperador, foi muito rápido também. Na minha cabeça, achava que ele ia me matar. Lembrava dos noticiários, das notícias sobre mulheres estupradas e mortas.

Eu só queria que ele adiantasse o processo, mas pelo visto era só imundície mesmo. Eu falava ‘moço, por favor, me mate logo’, e ele dizia ‘vou te matar, você não pediu?’ mas não mostrava a arma.

Eu agora estou estável, apesar do trauma. Nos primeiros dias, eu me assustava com a sombra do meu próprio pai dentro de casa. Me considero bem, mas sei que não é assim com todo mundo”, resume.

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